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AVC e emergências neurológicas · Agosto de 2026 · 6 min de leitura

AVC: sinais de alerta que não podem esperar

Reconhecer os sinais de AVC em minutos pode definir o tratamento possível. Entenda o protocolo FAST, por que tempo é cérebro e o que fazer diante da suspeita.

Por Dr. Amilton Alves da Silva Junior — neurologista e neurocirurgião, CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113. Instituto Neuro Essentia, Balneário Camboriú (SC). Publicado em .

Os sinais que pedem atenção imediata

O protocolo internacional FAST (Face, Arm, Speech, Time) resume os três sinais mais frequentes do AVC: rosto caído de um lado (ao sorrir, um dos lados não acompanha), fraqueza ou dormência súbita em um braço (ao levantar os dois braços, um cai ou não sustenta) e fala arrastada, confusa ou ausente. Campanhas brasileiras de educação em saúde adaptam esse mesmo conteúdo em um mnemônico local: Sorriso assimétrico, Abraço (força nos braços), Mensagem (fala) e Urgência — o U que lembra ligar para o SAMU. Outros sinais também podem aparecer isoladamente: perda súbita de visão em um olho ou parte do campo visual, tontura intensa com desequilíbrio, dor de cabeça muito forte e súbita sem causa aparente. O ponto em comum é sempre o mesmo: início abrupto, não gradual.

Tempo é cérebro: por que cada minuto conta

No AVC isquêmico, o tecido cerebral privado de fluxo sanguíneo é perdido progressivamente enquanto a artéria permanece obstruída. Uma revisão publicada no BMJ (Phipps, Cronin, 2020, PMID: 32054610) descreve a trombólise intravenosa como tratamento com janela clássica de até 4,5 horas do início dos sintomas, e a trombectomia mecânica — remoção mecânica do coágulo por cateter — como opção que, em pacientes selecionados por exame de imagem, pode ser considerada em janelas estendidas. Uma revisão publicada na Neurology (Jadhav, Desai, Jovin, 2021, PMID: 34785611) detalha como estudos como DAWN e DEFUSE-3 ampliaram essa janela para até 24 horas em casos específicos, com base em critérios de imagem — não em uma regra fixa para todos os pacientes. Na prática, isso significa uma coisa simples: quanto mais cedo o paciente chega a um serviço com capacidade de neuroimagem e tratamento, maior o número de opções terapêuticas disponíveis. Depois de um certo ponto, algumas dessas opções deixam de existir — não porque a equipe médica decida assim, mas porque o tecido cerebral já não é recuperável.

O que fazer diante da suspeita

Ligue para o SAMU (192) imediatamente. Não espere para ver se os sintomas passam — mesmo quando passam sozinhos em minutos, isso pode ser um ataque isquêmico transitório (AIT), que também é emergência e antecede um AVC estabelecido em uma proporção relevante dos casos. Não ofereça água, alimentos ou qualquer medicação por conta própria: parte dos pacientes com AVC tem dificuldade de deglutição, e engasgo é um risco real. Anote (ou peça para alguém anotar) o horário exato em que os sintomas começaram — é a informação mais importante que a equipe médica vai perguntar, porque define diretamente quais tratamentos ainda são possíveis. Uma pesquisa qualitativa publicada na Healthcare (Wang et al., 2021, PMID: 34442198) descreveu esse intervalo de hesitação — a tendência de duvidar, esperar "para ver se piora" ou tentar remédio caseiro antes de buscar ajuda — como o principal fator de atraso relatado pelos próprios pacientes. E um estudo publicado no Canadian Journal of Neurological Sciences (Rioux et al., 2021, PMID: 33875043) mostrou que, mesmo após repetidas campanhas públicas de conscientização, quase um terço da população ainda não reconhece nenhum sinal do protocolo FAST — reforçar esse conhecimento continua sendo, na prática, parte do tratamento do AVC.

Fatores de risco e o papel da prevenção

Hipertensão arterial não controlada, fibrilação atrial, diabetes, tabagismo, sedentarismo e colesterol elevado são os fatores de risco modificáveis mais associados ao AVC. Boa parte deles é silenciosa — não dói, não incomoda, e por isso passa despercebida por anos. É esse o espaço do checkup neurológico preventivo: mapear esses fatores antes que se manifestem como emergência. Não existe garantia de que o AVC não vai acontecer — existe, sim, uma redução consistente de risco quando esses fatores são identificados e tratados a tempo.

Referências bibliográficas

  1. Phipps MS, Cronin CA. BMJ. 2020;368:l6983. doi: 10.1136/bmj.l6983.
  2. Jadhav AP, Desai SM, Jovin TG. Neurology. 2021;97(20 Suppl 2):S126-S136. PMID: 34785611.
  3. Wang PY et al. Healthcare (Basel). 2021;9(8):1061. PMID: 34442198.
  4. Rioux B et al. Can J Neurol Sci. 2021;49(2):231-238. PMID: 33875043.

Sobre o autor

Dr. Amilton Silva Jr. é neurologista e neurocirurgião, especialista em Dor Crônica pelo HC-USP, pós-graduado em Cannabis Medicinal e Saúde Mental Integrativa, e fundador do Instituto Neuro Essentia em Balneário Camboriú, SC. CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113.

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