Dor e enxaqueca · Julho de 2026 · 6 min de leitura

Enxaqueca crônica: além do analgésico

A enxaqueca crônica é uma doença neurológica tratável. Entenda por que o analgésico isolado piora o quadro e o que a neurologia moderna oferece.

O problema com o analgésico como solução principal

A enxaqueca afeta aproximadamente 1 bilhão de pessoas no mundo. No Brasil, estima-se que 15% da população sofra da condição. O uso frequente de analgésicos para controle da enxaqueca cria um ciclo que piora o quadro — a cefaleia por uso excessivo de medicação. O sistema nervoso, exposto cronicamente a analgésicos, recalibra seu limiar de dor para baixo: a cabeça passa a doer com estímulos cada vez menores, exigindo doses cada vez maiores para controle cada vez menor. Triptanos e AINEs usados em mais de 10 a 15 dias por mês já configuram uso excessivo com risco de cronificação.

O que a neurologia moderna oferece

A maior revolução no tratamento da enxaqueca crônica das últimas décadas foi o desenvolvimento das terapias anti-CGRP. O peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) é um neuropeptídeo central na fisiopatologia da enxaqueca — sua liberação pelo sistema trigeminovascular desencadeia e sustenta a crise. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Headache and Pain (Oliveira, Gil-Gouveia, Puledda, 2024, PMID: 38575868) confirmou a eficácia das terapias anti-CGRP como primeira linha de prevenção em enxaqueca crônica, com perfil de segurança superior aos preventivos clássicos. A American Headache Society atualizou seu posicionamento em 2024 declarando essas terapias como opção de primeira linha para prevenção.

Outras ferramentas disponíveis

Além dos anti-CGRP, o arsenal atual inclui toxina botulínica (onabotulinumtoxin-A) — aprovada para enxaqueca crônica — e neuromodulação não invasiva. A combinação de toxina botulínica com anticorpos anti-CGRP mostrou benefício adicional em estudos retrospectivos para pacientes refratários. Intervenções no estilo de vida — regularidade do sono, hidratação, manejo do estresse, exercício aeróbico regular — têm evidência consistente como estratégia adjuvante.

Quando procurar um neurologista

Se você tem dor de cabeça em mais de 4 dias por mês, se usa analgésico mais de 2 vezes por semana, se a dor interfere com trabalho ou vida social, ou se sente que a medicação está perdendo efeito — é hora de uma avaliação neurológica. A enxaqueca crônica é tratável. O analgésico como única estratégia não é tratamento — é manejo de crise sem resolução do problema.

Referências bibliográficas

  1. Oliveira R et al. J Headache Pain. 2024;25(1):51. PMID: 38575868.
  2. Charles AC et al. Headache. 2024;64:333-341. doi: 10.1111/head.14692.
  3. CGRP and Migraine. PMC. 2025. doi: 10.1146/annurev-pharmtox-022724-110024.

Sobre o autor

Dr. Amilton Silva Jr. é neurologista e neurocirurgião, especialista em Dor Crônica pelo HC-USP, pós-graduado em Cannabis Medicinal e Saúde Mental Integrativa, e fundador do Instituto Neuro Essentia em Balneário Camboriú, SC. CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113.

Próximo passo

Agende sua avaliação neurológica.

Agendar avaliação neurológica