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Neurocirurgia · Agosto de 2026 · 7 min de leitura

Hérnia de disco e dor ciática: quando a neurocirurgia entra em cena

Nem toda hérnia de disco precisa de cirurgia — mas a síndrome da cauda equina é uma emergência que não espera. Entenda quando o tratamento conservador basta e quando a avaliação cirúrgica é necessária.

Por Dr. Amilton Alves da Silva Junior — neurologista e neurocirurgião, CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113. Instituto Neuro Essentia, Balneário Camboriú (SC). Publicado em .

O que é a hérnia de disco e por que ela dói na perna

Entre cada vértebra da coluna existe um disco que funciona como amortecedor. Quando parte desse disco se desloca e comprime uma raiz nervosa próxima, o resultado não é só dor lombar — é dor que desce pela perna, muitas vezes acompanhada de formigamento, queimação ou fraqueza. Esse quadro tem nome: ciática. A intensidade da dor na perna, mais do que a dor nas costas, costuma ser o que mais incomoda e o que melhor indica o grau de compressão da raiz nervosa.

Quando o tratamento conservador resolve — e quando não resolve

Na maioria dos casos, o corpo reabsorve parte do material herniado e os sintomas melhoram sozinhos: entre 60% e 80% dos pacientes têm resolução em 6 a 12 semanas, e de 80% a 90% em até um ano, segundo revisão publicada no Deutsches Ärzteblatt International (Kögl et al., 2024, PMID: 38835174). Por isso, na ausência de déficit neurológico relevante, a recomendação é 6 a 12 semanas de tratamento conservador — fisioterapia, medicação, atividade orientada — antes de considerar cirurgia.

O que muda esse cálculo é a persistência. Um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine acompanhou pacientes com ciática persistente havia 4 a 12 meses e comparou microdiscectomia com tratamento conservador continuado: aos 6 meses, a dor na perna era significativamente menor no grupo operado (Bailey et al., 2020, PMID: 32187469). Ainda assim, um terço dos pacientes do grupo conservador optou por operar mais tarde por conta própria — o que mostra que a decisão cirúrgica, quando não há emergência, é uma escolha compartilhada sobre tempo de sofrimento, não uma obrigação automática.

Síndrome da cauda equina: a exceção que não pode esperar

Existe uma situação em que esperar 6 a 12 semanas coloca a função do paciente em risco real: a síndrome da cauda equina, causada por uma hérnia que comprime o conjunto de raízes nervosas na porção final da coluna. Os sinais de alerta são específicos — perda de sensibilidade na região da sela (períneo, nádegas internas), retenção ou incontinência urinária, incontinência fecal, ou fraqueza progressiva nas duas pernas. Revisões recentes classificam essa síndrome como emergência cirúrgica absoluta, com indicação de descompressão em até 24 a 48 horas — não dias, não semanas (Kögl et al., 2024, PMID: 38835174; Conte et al., 2026, PMID: 42053010). O atraso no diagnóstico ou no tratamento está associado a sequelas que podem ser permanentes: incontinência, disfunção sexual e paralisia de membros inferiores.

Se você tem dor ciática associada a qualquer um desses sinais, a conduta correta é procurar um pronto-socorro imediatamente — não aguardar uma consulta eletiva.

Por que essa decisão pede um olhar duplo: neurológico e cirúrgico

Entre o extremo da emergência e o extremo da resolução espontânea, existe uma faixa grande de casos em que a decisão de operar — ou continuar em tratamento conservador — depende de um exame neurológico preciso: grau de força muscular, reflexos, extensão da compressão, tempo de evolução. Um profissional formado tanto em neurologia quanto em neurocirurgia tem a mesma pessoa avaliando o quadro clínico completo e decidindo, com critério técnico, se a indicação cirúrgica é real — sem o viés de operar cedo demais nem o risco de postergar uma indicação que já existe. Essa não é uma promessa de resultado: é rigor na decisão sobre quando a cirurgia realmente muda o desfecho.

Referências bibliográficas

  1. Bailey CS et al. N Engl J Med. 2020;382(12):1093-1102. PMID: 32187469. doi: 10.1056/NEJMoa1912658.
  2. Kögl N et al. Dtsch Arztebl Int. 2024;121(13):440-448. PMID: 38835174. doi: 10.3238/arztebl.m2024.0074.
  3. Conte A et al. Br J Hosp Med (Lond). 2026;87(4):52970. PMID: 42053010. doi: 10.31083/BJHM52970.

Sobre o autor

Dr. Amilton Silva Jr. é neurologista e neurocirurgião, especialista em Dor Crônica pelo HC-USP, pós-graduado em Cannabis Medicinal e Saúde Mental Integrativa, e fundador do Instituto Neuro Essentia em Balneário Camboriú, SC. CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113.

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