Tontura não é sinônimo de labirintite
"Tontura" é uma queixa inespecífica que pode significar coisas muito diferentes: a sensação rotatória da vertigem, o desequilíbrio ao caminhar, a instabilidade antes de desmaiar ou a névoa de cabeça leve. No consultório, o hábito é associar qualquer tontura à labirintite — mas a origem do problema pode estar no ouvido interno (periférica) ou no próprio sistema nervoso central (cerebelo, tronco encefálico, vias vestibulares centrais). São duas causas com investigação, gravidade e conduta completamente diferentes.
Os sinais que diferenciam uma tontura periférica de uma central
Diante de uma vertigem aguda, o neurologista busca sinais que apontam para origem central — e que mudam a urgência do caso. Uma revisão publicada no Journal of the Neurological Sciences (Fracica, Hale, Gold, 2022, PMID: 36270149) descreve o exame oculomotor à beira do leito — que vai além do clássico HINTS (impulso cefálico, nistagmo, teste de desvio ocular) — como ferramenta central para localizar a causa da síndrome vestibular aguda dentro do tronco encefálico e cerebelo. Segundo uma revisão publicada no Deutsches Ärzteblatt International (Strupp et al., 2020, PMID: 32530417), a origem central ou periférica de uma síndrome vestibular aguda geralmente pode ser determinada com rapidez a partir da história clínica e do exame — o que reforça por que a avaliação profissional precoce importa. Início súbito da tontura associado a visão dupla, fala arrastada, fraqueza ou dormência em um lado do corpo, dor de cabeça intensa incomum ou desequilíbrio importante ao caminhar são sinais de alarme que pedem avaliação neurológica imediata — podem indicar um evento vascular no tronco encefálico ou cerebelo, popularmente chamado de "AVC de fossa posterior".
Enxaqueca vestibular: a causa neurológica mais comum e mais subdiagnosticada
Nem toda tontura recorrente é rotulada corretamente. Uma atualização publicada na Current Opinion in Neurology (Villar-Martinez, Goadsby, 2024, PMID: 38619053) descreve a enxaqueca vestibular como uma condição subdiagnosticada, mas de alta prevalência em ambulatórios gerais, de cefaleia e de neuro-otologia — com apresentação clínica variável que pode incluir sintomas autonômicos e um quadro frequentemente confundido com transtorno funcional. Segundo os autores, esses pacientes costumam responder aos tratamentos preventivos habituais da enxaqueca, incluindo terapias direcionadas às vias do CGRP, independentemente do padrão exato dos episódios de tontura. Reconhecer a ligação entre crises de tontura e histórico de enxaqueca — mesmo sem dor de cabeça evidente no episódio — muda completamente a linha de tratamento.
Quando procurar um neurologista em vez de um otorrinolaringologista
Tontura associada a alteração de fala, visão dupla, fraqueza, dormência ou desequilíbrio franco ao caminhar é sinal de alarme e pede avaliação médica imediata. Episódios recorrentes de tontura em quem já tem histórico de enxaqueca, tontura persistente sem explicação otológica clara, ou desequilíbrio crônico que não melhora com o tratamento inicial também são motivo para avaliação neurológica — o exame clínico direcionado, muitas vezes complementado por exame de imagem, é o que diferencia uma causa periférica benigna de uma causa central que exige conduta específica.
Referências bibliográficas
- Villar-Martinez MD, Goadsby PJ. Curr Opin Neurol. 2024;37(3):252-263. PMID: 38619053.
- Fracica E, Hale D, Gold DR. J Neurol Sci. 2022;442:120451. PMID: 36270149.
- Strupp M et al. Dtsch Arztebl Int. 2020;117(17):300-310. PMID: 32530417.
Sobre o autor
Dr. Amilton Silva Jr. é neurologista e neurocirurgião, especialista em Dor Crônica pelo HC-USP, pós-graduado em Cannabis Medicinal e Saúde Mental Integrativa, e fundador do Instituto Neuro Essentia em Balneário Camboriú, SC. CRM-SC 9118 · RQE Neurologia 6114 · RQE Neurocirurgia 6113.
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